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DA APATIA À ESPERANÇA: UMA HISTÓRIA DE ADESÃO NO GERENCIAMENTO DE DOENTES CRÔNICOS
Cardoso, SAM*; Camacho, PPG**; Brandina, E***; Rosa, FE****.

Resumo

Introdução: Há diversos fatores envolvidos no tratamento da AIDS, sendo que a adesão a um tratamento feito por toda a vida é um elemento vital. Os objetivos dos programas domiciliares de gerenciamento de doentes crônicos são melhorar a qualidade de vida dos pacientes e reduzir os custos da assistência médica como conseqüência. A adesão do paciente ao tratamento, neste contexto, é um fator fundamental.

Apresentação da Instituição: A Athon Group é uma empresa provedora de soluções em saúde, oferecendo diversos produtos que incluem a assistência domiciliar.

Caracterização do trabalho: O gerenciamento de doentes crônicos é realizado através da equipe multiprofissional de saúde em domicílio, através da realização de visitas de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e nutricionistas, além de suporte e orientação por telefone com atendimento médico domiciliar 24 horas por dia.

População-alvo: O programa destina-se a portadores de doenças crônicas com alto custo, eleitos para a intervenção pelas operadoras de planos de saúde.

Impacto do serviço: A participação do gerenciamento de doentes crônicos na adesão ao tratamento é ilustrada através da história de uma paciente com AIDS, vítima de toxoplasmose cerebral e tuberculose pulmonar que estava necessitando de diversas hospitalizações para o tratamento de complicações clínicas. Estes problemas ocorriam principalmente pela falta de adesão ao seu tratamento recomendado. Através de uma ação intensiva, demonstrando a importância da adesão ao tratamento e provendo apoio à paciente e sua família, foi possível reverter um profundo quadro de apatia e depressão dando lugar a uma situação ideal de adesão plena à terapêutica. Apesar de se tratar de paciente oriunda da saúde suplementar (com plano de saúde), na busca da sinergia, o serviço público de saúde foi envolvido, maximizando os resultados em função da facilitação do acesso aos medicamentos específicos. Atualmente, a cliente exibe sinais importantes de melhora clínica e mental e não houve necessidade de novas hospitalizações, que eram freqüentes antes do início do programa de gerenciamento de doentes crônicos.

Considerações finais: A atuação da equipe multiprofissional do gerenciamento de doentes crônicos da Athon Group foi decisiva para promover a adesão ao tratamento e a melhora em todos os aspectos, cumprindo os objetivos ao qual o programa se destina.


*Cardoso, SAM – Assistente Social formada pela PUC-SP, especialização em saúde pública pela UNAERP, experiência em atendimento domiciliar e ambulatorial a pacientes HIV positivos na prefeitura de SP há 9 anos. (sueli@athongroup.com.br)
**Camacho, PPG – Enfermeiro formado pela faculdade UNINOVE, também com formação em fisioterapia pela faculdade UNIMAR, especialização em ortopedia fisioterápica, aprimoramento em geriatria fisioterápica e quimioterapia de enfermagem e  atuação em assistência domiciliar há 9 anos. (pedro@athongroup.com.br)
***Brandina, E – Médico pediatra formado pela Santa Casa de São Paulo, especialista em cardiologia pediátrica pela Santa Casa de SP, atua em assistência domiciliar há 5 anos.  (brandina@athongroup.com.br)
****Rosa, FE – Medico Oftalmologista formado pela SANTA CASA de São Paulo, com especialização em Administração de Empresas pela PUC-SP, diretor da Athon Group e atua em assistência domiciliar há 10 anos.  (fabiano@athongroup.com.br)

Introdução

Assim que se dão conta do diagnóstico, os pacientes com AIDS encontram-se num contexto bastante delicado. A adesão ao tratamento é para a saúde, qualidade de vida e sobrevida destas pessoas. Por outro lado, aceitar o uso da medicação mesmo sem sentir sintomas é um passo que só é possível a partir da aceitação da doença6. Além disso, os medicamentos possuem uma série de efeitos colaterais que são de difícil tolerabilidade, especialmente quando se considera a difícil situação psicológica e sócio-econômica na qual se encontram boa parte dos doentes1.

Antes da existência do tratamento anti-retroviral, a AIDS era uma sentença de morte. Hoje em dia, podemos considerá-la como uma doença crônica.

Assim, é primordial que o paciente receba esclarecimento e todo o apoio necessário para aderir ao tratamento. Tanto os profissionais envolvidos no tratamento quanto o núcleo familiar e social precisam estar preparados para isso2.

Muito pode ser feito por estes doentes nos programas de gerenciamento de doentes crônicos, especialmente quando consideramos que a admissão neste programa vincula-se à existência de importante comprometimento da saúde, presença de seqüelas e complicações.

A piora da AIDS e a presença de infecções oportunistas pode ser desencadeado pelo tratamento anti-retroviral inadequado1. O doente que está usando medicamentos regularmente apresenta prognóstico e sobrevida superiores aos que estão sem tratamento ou usando medicamentos irregularmente. Assim, o tratamento bem sucedido depende da adesão do doente.

Apresentação da Instituição

A Athon Group é uma empresa recente no mercado de saúde, que se propõe a atuar como facilitador na gestão de recursos e custos em saúde, oferecendo soluções práticas com resultados obtidos através de uma assistência de qualidade.

A gestão da saúde é praticada através de consultoria em saúde e prestação de serviços que vão desde a análise de sinistro de carteiras de operadoras de plano de saúde e empresas, passando por mapeamentos de risco em saúde, prática de ações de prevenção  primária, secundária e terciária até ações de assistência domiciliar.

Com abrangência nacional, a Athon Group realiza serviços inteligentes de educação da população assistida e melhoria da saúde dos pacientes sob nossos cuidados, focando na entrega de um resultado gerencial para o cliente.

Contando com uma equipe multiprofissional de aproximadamente 70 pessoas, central 24 horas de atendimento e softwares de gestão em plataforma web, o que permite uma capilaridade em diversos locais do país, a Athon Group proporciona programas que ajudam as operadoras de planos de saúde a oferecer um serviço de qualidade a um menor custo.

Caracterização do Trabalho

O gerenciamento de condições crônicas feito pela Athon Group é realizado através da equipe multiprofissional de saúde em domicílio, através da realização de visitas de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e nutricionistas, além de suporte e orientação por telefone com atendimento médico domiciliar 24 horas por dia.

O diferencial da empresa neste produto é a qualidade e a personalização do atendimento, além da possibilidade da análise clínico-epidemiológica dos resultados.

População Alvo

O programa destina-se a portadores de doenças crônicas com alto custo, eleitos para a intervenção pelas operadoras de planos de saúde.

Impacto do Serviço

Para exemplificar a importância do Programa de Gerenciamento de Condições Crônicas, relatamos um caso em que esta intervenção corroborou de forma determinante para que uma paciente com AIDS alcançasse um nível elevado de adesão medicamentosa com melhoria em sua qualidade de vida.

Relato do Caso

A paciente J.M.M.S., do sexo feminino, tem 34 anos, é parda, mora na cidade de São Paulo e trabalhava como auxiliar administrativa, encontrando-se no momento afastada por doença.

J. é portadora do vírus HIV há 14 anos e tem AIDS. Vem desenvolvendo doenças oportunistas e complicações clínicas de tuberculose pulmonar e toxoplasmose cerebral com seqüelas auditivas, visuais, motoras e de fala.

A paciente necessitou de sucessivas internações hospitalares nos últimos meses em função dos problemas acima relatados, que cada vez mais comprometiam sua saúde e sua auto-estima, além de interferir em sua vida familiar, ocasionando enormes gastos ao seu plano de saúde. A paciente J. custou para o seu plano de saúde R$ 165.249,00 no período de janeiro de 2002 a janeiro de 2004, sendo a maior parte deste custo em hospitalizações (R$ 144.601,00).

Tais internações eram causadas pela falta de uso regular das medicações: anti-retrovirais para a AIDS e antibióticos para a tuberculose. Como agravante, o agente causador  da tuberculose, graças às sucessivas interrupções e retomadas do tratamento medicamentoso, tornou-se multi-resistente, constituindo-se numa ameaça à vida da paciente e à saúde de seus familiares.

O plano de saúde de J. solicitou a admissão da mesma no programa de gerenciamento de condições crônicas logo após uma internação prolongada.

Na primeira visita em domicílio, a paciente J. encontrava-se bastante dependente, acamada, apresentando hemiparesia à direita, estrabismo convergente, febre e com episódios freqüentes e intensos de cefaléia. Apresentava-se ainda consciente, lúcida, desnutrida e contactuando normalmente. Na anamnese social verificou-se baixa auto-estima e baixa adesão ao tratamento, totalmente sem regularidade nas ingestas de medicamentos.

Era um quadro em que, baseado nos registros de sua trajetória por serviços de saúde, não propiciava perspectivas seguras de melhorias, caracterizando-se como um problema de Saúde Pública.

A paciente reside com dois filhos menores, de nove e dezesseis anos, a mãe e uma irmã desempregada. Seus cuidadores são a irmã e o filho caçula de 9 anos. Os filhos da paciente estão afastados da escola por dificuldade de acesso e necessidade de colaboração no cuidado à doente.

A família é bastante humilde e passa por vários problemas financeiros além da drogadição de um dos filhos da paciente.

Poucos dias após a primeira visita, a paciente apresentou cefaléia, perda visual e re-hospitalizou. No seu retorno, a ação da equipe de saúde foi incisiva no sentido de estreitar o vínculo com a cliente, optando por trabalhar mais insistentemente na adesão medicamentosa.

Foram feitas várias visitas ao domicílio. Trabalhou-se a auto-estima da paciente e o comprometimento familiar, orientando a todos e incentivando-os através de materiais educativos e telefonemas quase que diários.

Além disso, a equipe da Athon Group fez contato com o serviço público de AIDS, onde a paciente faz acompanhamento e com o PSF (Programa de Saúde da Família) de forma a que o acesso aos medicamentos fosse facilitados e se unissem forças no auxílio à paciente.

A paciente foi estimulada a realizar pequenas tarefas domésticas com objetivo de sentir-se mais útil e participativa.

A cada visita e a cada telefonema, percebia-se que o vínculo entre a equipe e a paciente tornava-se mais sólido. Ela conseguia sentir-se acolhida e segura para relatar fatos de sua vida e de suas preocupações que iam sendo compartilhadas e trabalhadas.

J. começou a ter sonhos de melhoria e a traçar objetivos para o futuro. Após dois meses fazendo parte do programa, sem novas internações, a paciente está se medicando de forma correta. Deixou de ser acamada para deambular com o andador e hoje já está praticamente independente para a marcha. Realiza pequenos afazeres domésticos e trabalhos manuais.

Seu aspecto físico melhorou consideravelmente e, embora os problemas econômicos e sociais continuem, a paciente está mais fortalecida e consegue enxergar um futuro para ela e para sua família.  

Discussão

Além de retardar a evolução da AIDS, o tratamento anti-retroviral adequado é fundamental para evitar as infecções oportunísticas3. Os efeitos colaterais dos medicamentos e condições sócio-econômicas desfavoráveis são fatores que reduzem consideravelmente a adesão ao tratamento, ocasionando piora na qualidade de vida e complicações clínicas1.

Hoje, o mundo vive uma pandemia de tuberculose, desencadeada entre outros fatores pelo advento da AIDS. Desde o ano 2000 já foram identificados cerca de 8,3 milhões de novos casos de tuberculose no mundo, sendo que 9% deles são atribuíveis à AIDS2. Onze por cento das mortes de doentes por AIDS são decorrentes da tuberculose, o que demonstra a importância da prevenção e do tratamento correto desta doença4.

O tratamento inadequado causa a recidiva da tuberculose e o doente também pode se expor novamente à doença. Estes fatores podem desencadear uma seleção de cepas de bactéria da tuberculose, tornando-a resistente às drogas habituais6. Estas cepas de bactérias são uma ameaça à sociedade, pois trata-se de doença contagiosa cujo tratamento é difícil e prolongado.

O sistema nervoso central é o segundo órgão mais freqüentemente atingido pelas infecções oportunistas da AIDS, sendo que no Brasil a toxoplasmose cerebral é a mais importante7.

Os fatos acima relatados demonstram a importância do trabalho desenvolvido junto à paciente J., corroborando que a melhoria apresentada deve-se à retomada de um tratamento regular.

A adesão ao tratamento veio seguida de uma melhoria clínica contribuindo para que a paciente saísse de um quadro de apatia e depressão perante a sua condição clínica. Desta forma, criou-se um círculo virtuoso de melhora física, melhora mental e tratamento regular.

Considerações Finais

A intervenção da equipe do gerenciamento de condições crônicas da Athon Group, ao atender a paciente J., foi decisiva para promover uma alteração no seu contexto bio-psico-social. Houve a reversão de um quadro de progressiva decadência física e moral, que provavelmente levaria a paciente à morte.

A paciente hoje valoriza a vida e o tratamento e todos foram beneficiados com isso: saúde e qualidade de vida para a paciente e redução de custos para o plano de saúde.

O profissional da equipe de saúde domiciliar, seja no gerenciamento de condições crônicas ou em qualquer outro programa, deve atentar-se à adesão do tratamento por parte de seus pacientes, contribuindo para que ele use regulamente as medicações, pois este é um fator determinante de sucesso de toda a assistência.


Bibliografia

1. TEIXEIRA, P.R.; PAIVA, V.; SHIMMA, E. Tá difícil de engolir? Experiências de adesão ao tratamento anti-retroviral em São Paulo. Primeira Edição; São Paulo: Nepaids; 2000. p.1-143.

2. BARA, A. et al. Acolhimento – o pensar, o fazer, o viver. Primeira Edição; São Paulo: Secretaria Municipal de Saúde; 2002. P1-130.

3. MANZARDO, C; ORTEGA, M.D.M.; SUED, O; GARCIA, F; MORENO, A; MIRO, J.M. Central nervous system opportunistic infections in developed countries in the highly active antiretroviral therapy. J Neurovirol 11(Suppl 3): 72-82, 2005.

4. CORBETT, EL; WATT, CJ; WALKER, N; MAHER, D; WILLIAMS, BG; RAVIGLIONE, MC DYE, C. The growing burden of tuberculosis: global trends and interactions with the HIV epidemic. Arch Intern Med 163(9):1009-21, 2003.

5. NAGAI, H. HIV infection and tuberculosis. Kekkaku 78(1):45-9 2003.

6. COLLAZOS, J. Opportunistic infections of the CNS in patients with AIDS: diagnosis and management. CNS Drugs 17(12): 869-87, 2003.

7. SILVA, M.T.; ARAÚJO, A. Highly active antiretroviral therapy access and neurological complications of human immunodeficiency virus infection: impact versus resources in Brazil. J Neurovirol 11(Suppl 3):11-5, 2005.